Beija-florindo

 
Em uma dessas conversas, ele me disse que todas as tardes, por volta das 12h40min, um beija-flor passava por sua janela, procurava néctar e logo ia embora; remexia as flores do quintal e sumia. Tão provisório, lindo e vulnerável como ele só. Aproveitou a oportunidade e disparou a frase: “é, depois do almoço ele sempre acaba se beija-florindo”. Como não rir de um verbo que define tanto a sua própria transitoriedade? Pedir para você não voar é quase poesia. Pedir pra você ficar depois das 12h40min, dá samba. Se eu soubesse antes que me importar com seu bater de asas era atitude de menina apegada e infantil, não teria apostado comigo mesma na sua piedade. Eu que não percebia: tudo no seu tempo, em certos momentos... Se Cazuza conhecesse o meu drama, diria que “dá pra fazer rima toda a minha bobagem”... E eu, sempre tão cheia de flores, te servindo de ninho de vez em quando, quando o inverno insistia em te arrancar das raízes murchas de outros amores mal plantados. Que raiva que dá ter cor só pra quem não sabe amar! Você sempre me pedia o néctar que eu não tinha, mas eu me virava. Sempre quis um beija-flor voando pelo jardim, sem grades, mas por perto... Meus pés estavam nas nuvens e eu nem suspeitava o quanto a queda podia ser dolorosa e que as suas pequenas asas não poderiam me segurar no ar. Se eu soubesse antes da sua vaga transitoriedade, me esforçaria para não me apaixonar por quem só sabe embelezar uma tarde. Se eu soubesse antes, imploraria para que passasse assim mesmo, no horário do almoço e fosse logo embora. Nunca imaginei que te preferiria beija-florindo...

Tenho, aos poucos, ido embora


Numa de nossas conversas corriqueiras, escutei você dizer que odeia perder as chaves do carro. Assim, do nada, foi o que você falou. Imagina então, quando você se der conta de que me perdeu. Imagina só quando você se tocar que o que era teu, já não te pertence. Logo você que sempre dizia: "Das minhas coisas cuido eu", parece não ter notado que tenho, aos poucos, ido embora. Fico pensando se fará alguma diferença perder meu coração junto com as suas chaves ou quem sabe as chaves te façam mais efeito. Quem sabe? Pra quem odeia perder as coisas, você tem provocado em mim uma imensa vontade de fugir de ti e, mesmo assim, tenho me obrigado a ficar te lembrando repetidas vezes onde estão os objetos esquecidos, até mesmo onde está meu coração... Toma cuidado, não esquece onde guarda ele não... Um dia, quem sabe, eu não estarei mais aqui pra te lembrar onde você deixou jogado o que, na verdade, nunca era pra ter sido achado.

"Mesmo sendo limão, é ele que quero semear"



Eu achava que amar era olhar pro cara certo, no momento exato e, como cena de filme, fogos explodiriam e surgiria uma nota de rodapé com um "foram felizes para sempre". Eu achava que amar era acaso: nos esbarramos hoje, nos apaixonamos no mesmo instante e ai fomos felizes. Eu achava que amar era ser pólvora e o outro fogo: encostou já era. Eu achava um monte de bobagenzinhas até antes de amar. Percebi que amor mesmo, esses que a gente luta tanto pra viver, é escolha. Sim, escolha. É plantar a semente do outro mesmo sem saber que fruto vai dar. E, mesmo que não seja o mais esperado, colher com mãos de ternura. Amor é vela acesa no meio da ventania que nos faz queimar a ponta dos dedos pra não deixar o fogo apagar. Sua essência está na cera que derrete e a mantém de pé, sem titubear. Amor é escolher deixar a vela acesa, mesmo podendo apagar, mesmo podendo deixar a ventania levar. Amor é escolher a palavra mais incrível do vocabulário: permanecer. Tão lindo quem permanece! Pra ser amor não precisa ser a fruta mais doce do Universo. Mas precisa ter o teor de escolha: mesmo sendo limão, é ele que quero semear.

Mistura Perigosa

A gente decidiu não mais se encontrar. É que tava tudo muito intenso, muito aceso e a gente não sabia administrar. Eu, por achar que tudo é sempre fácil; você, por achar que pode tudo na hora errada. Ah, nós dois! Não deixarei de sentir saudade. Uma mistura mais perigosa que qualquer poção de Medeia. Nós dois: Lenha e fogo, céu e querubim. A gente se encaixava de forma fácil e abrupta. Mas, olha só que desventura: Não era nossa hora. Não tá no nosso tempo, meu bem. Quero muito que você entenda que meu barco continua disponível, continua parado esperando seus braços me ajudarem a remar, mas, ainda não chegou a hora. A gente tem que aprender a nadar sozinho pra depois, quem sabe, nos ajudarmos. Não é simples mas sei que você me entende, não é? Os momentos foram marcados, os caminhos traçados. Os beijos? Guardados. Os sorrisos? Lembrados. Mas tá na hora de seguir, amor... Vai em frente porque quem sabe lá na frente a gente não se esbarra, a gente não se acha... E, talvez, só talvez, meu benzinho, não precisemos mais de barco, nem de qualquer coisa que dê trabalho: Só terra firme, só constância. Só nós dois.