Beija-florindo

 
Em uma dessas conversas, ele me disse que todas as tardes, por volta das 12h40min, um beija-flor passava por sua janela, procurava néctar e logo ia embora; remexia as flores do quintal e sumia. Tão provisório, lindo e vulnerável como ele só. Aproveitou a oportunidade e disparou a frase: “é, depois do almoço ele sempre acaba se beija-florindo”. Como não rir de um verbo que define tanto a sua própria transitoriedade? Pedir para você não voar é quase poesia. Pedir pra você ficar depois das 12h40min, dá samba. Se eu soubesse antes que me importar com seu bater de asas era atitude de menina apegada e infantil, não teria apostado comigo mesma na sua piedade. Eu que não percebia: tudo no seu tempo, em certos momentos... Se Cazuza conhecesse o meu drama, diria que “dá pra fazer rima toda a minha bobagem”... E eu, sempre tão cheia de flores, te servindo de ninho de vez em quando, quando o inverno insistia em te arrancar das raízes murchas de outros amores mal plantados. Que raiva que dá ter cor só pra quem não sabe amar! Você sempre me pedia o néctar que eu não tinha, mas eu me virava. Sempre quis um beija-flor voando pelo jardim, sem grades, mas por perto... Meus pés estavam nas nuvens e eu nem suspeitava o quanto a queda podia ser dolorosa e que as suas pequenas asas não poderiam me segurar no ar. Se eu soubesse antes da sua vaga transitoriedade, me esforçaria para não me apaixonar por quem só sabe embelezar uma tarde. Se eu soubesse antes, imploraria para que passasse assim mesmo, no horário do almoço e fosse logo embora. Nunca imaginei que te preferiria beija-florindo...

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