Esperança e Luto

Quando me diziam "perdi as esperanças", eu achava tão sem sentido que nem contestava. O fato de "ter esperanças" me parecia tão subjetivo que, a meu ver, mais se tratava de uma frase de efeito que de sentimento, sabe? A gente pode sentir os ventos nos cabelos, o arrepio da pele. A gente sente amor. Sente dor. Mas esperança? O que ela fazia com a gente? Eu não sabia. E como poderia? Esperança é meio que aquela pessoa que, por ser tão nossa, não nos passa pela cabeça que sua perda seria dolorosa. É aquela pessoa a qual nos acomodamos e esquecemos num canto. A gente "tem", fim. Sem grande celeuma. Porém, certo dia, ao chegar em casa ela não estava no sofá. Ela não se pôs à mesa para conversar e nem na cama para dormir ao meu lado. Ela sumiu. Procurei por todos os cômodos: minha Nossa Senhora, cadê a Esperança? Eu a perdi. Daí, toda aquela prosa inicial fez sentido. Se tornou tão "mais objetiva" que parecia faca afiada na pele, dilacerando em cortes verticais, uniformes, dolorosos... Parecia que aquela pessoa que já se confundia com os cômodos da casa, havia arrumado sua trouxa e dado no pé. Que vago. Que buraco sem fim. Que confusão de vida. Dei-me conta: Ela não é a última que morre, só demora a desaguar, só teima a não ser despercebida. Perder as esperanças dói como perder o ente mais querido da família.

COMENTÁRIO(S) PELO FACEBOOK

Postar um comentário