Prefere Tênis Ou Frescobol?







Não é fácil amar o próximo e a gente ainda complica, já percebeu? Você sempre exige o que não podem te dar e ainda acha justo, ainda acha certo. Você sempre espera e ancora suas expectativas no outro como se ele – ser falho e errôneo como você – fosse obrigado a suprir necessidades, por vezes, egocêntricas. Não é correto. Hoje em dia as pessoas veem o ato de amar como um jogo de tênis: Um vai devolvendo a bola para o outro, utilizando cortadas, procurando os pontos fracos do adversário até fazê-lo derrubar a bola. É um tal de joga sonho, carinho, afeição pra lá e pra cá até um deixar cair e só um poder rir com a vitória, apontando o dedo na sua cara: "A culpa foi sua". Um vai passando as responsabilidades para o outro num ciclo vicioso. Disforme. Tênis é um jogo que só há um vencedor. Ou seja, felicidade de um, tristeza do outro. É assim que acham que relacionamento tem que ser. As coisas deveriam ser muito mais simples como um jogo de frescobol: Para ser bom, nenhum dos dois podem perder, porque ambos almejam vencer juntos. Para começo de conversa, o outro nem é seu adversário, é seu parceiro. Ninguém fica feliz quando o parceiro erra a jogada, e se errou, pede desculpas e recomeça. Há os 3 C's mais bonitos do mundo: comprometimento, confiança e cumplicidade. A bola é devolvida gostosa, e se houver um deslize, a gente tenta consertar para que o jogo flua bem! E assim segue – bola vai, bola vem, compartilha-se sonhos e fantasias, marcam pontos juntos: Amor que cresce, viu? Sem essa impetuosidade que o tênis exige. Sem a vontade alucinada de fazer o outro perder, de provocar ganância e destruir toda a conivência. Tem que querer vencer junto, não é? Tem que ler os sinais do parceiro. O negócio é manter o outro na jogada! Tem que ser feliz a dois!


É, acho que amar é isso: Um jogo de frescobol.

Bicicleta Sem Rodinhas





Minha avó me ensinou direitinho como cuidar de um machucado: " quando você se machucar, lave bem e ponha um curativo no lugar. E quando estiver remotamente melhor, arranque o curativo da ferida com um puxão rápido e acelerado, que enche os olhos de lágrimas, mas que dói tudo de uma vez só." Ela só esqueceu de me alertar que tem que ser assim também com as feridas do coração. Quando se trata de assuntos sentimentais, porém, eu vou removendo camada por camada, em dolorosa lentidão. Remoendo e chorando a cada puxada. Já escutei coisas do tipo: " parece que gosta de sofrer, menina! Parece ter prazer em se machucar. Masoquista, é isso que você é!" Talvez fosse. Ou talvez a esperança de encontrar alguém que remonte o coração que outro alguém quebrou seja muito ferrenha e supra toda a dor, faça com que ela nem seja mais sentida. Mas ninguém aparece. Uma hora o machucado é tão grande que não há "curativo emocional" que cubra ou "água esperançosa" que limpe. E é o que tem acontecido, sabe? Até certo tempo eu sabia reconhecer uma dor se aproximando a léguas. Meus pastores alemães internos ladravam em sinal de alerta ao sentirem o cheiro de encrenca no ar. Hoje eles já não são tão eficientes assim. Estão velhos demais, dormem profundamente. Quem aparece junto a cerca do meu coração com potencial para me causar dor, logo faz amizade com meus cães de guarda (malditos e traidores!). Quem chega traz consigo uma bicicleta sem rodinhas, mesmo sabendo que eu não aprendi a andar. Resultado: milhões de machucados que eu tenho que tratar sozinha. Acho que já sou meio dependente dessa falta de sorte. Dores já fazem parte, cicatrizes formaram tatuagens e o cara da farmácia já me conhece – faz um preço justo.