Bicicleta Sem Rodinhas





Minha avó me ensinou direitinho como cuidar de um machucado: " quando você se machucar, lave bem e ponha um curativo no lugar. E quando estiver remotamente melhor, arranque o curativo da ferida com um puxão rápido e acelerado, que enche os olhos de lágrimas, mas que dói tudo de uma vez só." Ela só esqueceu de me alertar que tem que ser assim também com as feridas do coração. Quando se trata de assuntos sentimentais, porém, eu vou removendo camada por camada, em dolorosa lentidão. Remoendo e chorando a cada puxada. Já escutei coisas do tipo: " parece que gosta de sofrer, menina! Parece ter prazer em se machucar. Masoquista, é isso que você é!" Talvez fosse. Ou talvez a esperança de encontrar alguém que remonte o coração que outro alguém quebrou seja muito ferrenha e supra toda a dor, faça com que ela nem seja mais sentida. Mas ninguém aparece. Uma hora o machucado é tão grande que não há "curativo emocional" que cubra ou "água esperançosa" que limpe. E é o que tem acontecido, sabe? Até certo tempo eu sabia reconhecer uma dor se aproximando a léguas. Meus pastores alemães internos ladravam em sinal de alerta ao sentirem o cheiro de encrenca no ar. Hoje eles já não são tão eficientes assim. Estão velhos demais, dormem profundamente. Quem aparece junto a cerca do meu coração com potencial para me causar dor, logo faz amizade com meus cães de guarda (malditos e traidores!). Quem chega traz consigo uma bicicleta sem rodinhas, mesmo sabendo que eu não aprendi a andar. Resultado: milhões de machucados que eu tenho que tratar sozinha. Acho que já sou meio dependente dessa falta de sorte. Dores já fazem parte, cicatrizes formaram tatuagens e o cara da farmácia já me conhece – faz um preço justo.

COMENTÁRIO(S) PELO FACEBOOK

Postar um comentário