Aceito O Casaco




Dia desses um amigo me viu tremendo de frio e me ofereceu um casaco. Mas como explicar-lhe que esse frio é diferente? Não sei se faz mais frio lá fora ou aqui dentro. Como explicar-lhe que esse frio não cessa com casaco de lã? O jeito era encontrar um de pele. Pele humana, desprovida de pudores, medos e e calças. Pele na pele e olho no olho igual a calor. Matemática simples para qualquer hora do dia. Como pedir para meu amigo um coração sinônimo que aquecesse? "- Bom, obrigada, mas esse casaco não acalenta o vendaval da minha alma". Mas acho que não pegaria muito bem. Muito chato a tal da incompatibilidade de alma: enquanto uns querem bons drinks para dançar, eu queria um calor que abraçasse a minha solidão e a puxasse para bailar. Enquanto uns querem um stand up comedy para gargalhar, eu queria um sentimento bom que risse e fizesse bem ao meu ego quase desesperado. Quero alma para viver e coração para aquecer. Se algo se assemelhe aos efeitos do frio, que seja aquela coisa estranhamente gostosa na epiderme: os arrepios. Nada de adeus! Isso faz chover tanto nas nossas estradas, sabe? 
Mas acho que tudo isso é coisa de quem vive para se dar e há muito já me perdoei. Acredito não ser utopia. Acredito que não é só ilusão ou fascinação pelos românticos incuráveis e em extinção. Sou menor e acredito que tudo é questão de bem querer. Sou menor e já tenho passagem pela polícia: andei furtando, à mão encantada, as esperanças do mundo. 
Quero calor que faça derreter tudo aquilo que me fez por um só minuto temer o amor, o mundo, a mim mesma. Muito difícil, uma vez que, num mundo tão glacial, as pessoas preferiram ser a ponta do iceberg... Mais triste ainda é ter que aceitar o casaco pra disfarçar o frio que vem de dentro!

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