Tô Nem Aí



Tô nem aí, é isso que eu tenho pra falar. Não me peçam mais pra ficar, é pedir pra sofrer. Me instalar e todo o blá-blá-blá da vida conjugada já não me agrada. Prefiro um bar! Uma música rasa e desprovida de romantismo, uma vodka e duas pedras de gelo pra combinar com o coração. Uma maquiagem bem feita pra disfarçar o sono e um sorriso irônico pra quem pensa que se aproximar e bancar a próxima rodada é garantia de cama mais tarde. Tô chata, é verdade. E se eu tentar explicar, ninguém vai entender. Mas vou logo alertando: tô nem aí. Já pedi a minha carta de alforria e agora nada me prende, nada me engasga, nada me anula. O que tinha preso na garganta, todo esse sentimento mal-interpretado, escancarado, envenenado, foi parar na privada, sem um pingo de constrangimento. Há tempos as pessoas deixaram de ser interessantes pra se tornarem interessadas. Interessadas nas performances na cama, na conta bancária, na hipocrisia disfarçada de moralidade. Agora, sabe, tô passando, deixando todo o resto passar, sem pesar, sem sequer pensar. E, tempos atrás, aprendi que isso é coisa de quem se dá demais. Sempre nutri um amor faraônico por aqueles que lutam, incessantemente, pelas almas perdidas no meio do caos do "não sentir". Era por esses o meu apreço total. E foi um desses que me levou a profundidade de um sonho desesperado de querer amar. Mas hoje, que me desculpem os engomadinhos, eu prefiro os canalhas. Aqueles que não me corroem de expectativas (cresci na teimosia e sempre me apaixonava por essas meninas mal-criadas), aqueles que dizem "não vou ligar" e não ligam mesmo. Aqueles que dizem "vou chegar tarde porque tô com uns amigos aqui" e se atrasam mesmo, sem dó nem piedade. Aprendi a gostar mais dessa gente realista que fala e faz, sem florear uma vida que eu não sou capaz de lidar. E se ele não fica, não tem pra que se preocupar com curativos e algemas, fantasias e miragens. É que essa mania de querer relativizar certas inverdades atormenta meu sistema nervoso. E, fazendo jus a minha fase "nem aí", eu prefiro os que não me entopem de romantismo barato, falso como a própria vontade de amar. Mais uma vodka, por favor!