Relógio Defeituoso







É incrível como o tempo passa e como as coisas nem sempre se encaixam como nossas mães costumam dizer. É verdade. Às vezes batem umas malditas vontadezinhas que a gente não sabe de onde vem e que não passam nunca. Aquela vontade que surge no meio da noite de te ligar só pra escutar um "oi" não passa. Às vezes queria sentar no batente da porta com você e te contar que superei meu medo de palhaço, que minha coleção de etiquetas se multiplicou, que meu cabelo cresceu e que eu emagreci. Queria te dizer que eu tô bem cansada, sabe? De tudo, dos estudos... Mas eu juro que não vou desistir. Queria te mostrar cada texto que ainda não publiquei, cada foto engraçada que tirei... Nada disso passa. Tenho ainda aquela vontade louca de voltar atrás. De me agachar ao seu lado, erguer seu queixo, limpar as lágrimas e pedir desculpas. Dizer, quem sabe: "- Sinto muito, menino." E talvez ir embora de vez, sem impedi-lo também. Mas nada disso é permitido porque o tempo é cruel e faz gotejar vinagre em todas as feridas. Se o tempo é remédio ele não é tão eficiente quanto dizem. Não sei quando vou me acostumar com esse relógio defeituoso e quando minha saudade de você vai se esvair, como todo mundo diz que é pra ser. Talvez eu seja uma exceção à regra: nada está sacramentado antes de acontecer. Mas e esse amor que devia ter ido embora logo que sua indiferença passou? Misericórdia! Devo mesmo apostar todas as fichas no tempo clichê que tira onda de minha cara?