Amor ou Incomodo?

Sabe o que é pior? É depositar a maldita da esperança num buraco muito raso. Tão raso que a gente a vê ali, submergindo, boiando, só na superfície, quase perdendo as forças de tanto nadar sem sair do lugar. Eu esperava mesmo que tudo desse tão certo! Que o beijo fosse o mesmo, que a alegria fosse bem vinda: olha que bobinha! Vesti o melhor sorriso e me blindei com a confiança de que você, finalmente, fosse ressuscitar um amor hibernoso. Mas tapei o Sol com a peneira: amor morno não afeta o paladar. E eu já estava acostumada a coisa doce, com sabor de fruta tropical, viu? Dei credibilidade, às cegas, a um "incomodo". Isso mesmo, deixou de ser amor faz tempo pra se tornar um incomodo. Desses que ficam lá dentro da gente e nos faz remexer todas as gavetas procurando o que é, jogar todo o sentimento de auto-proteção pro ar e esquecer o amor-próprio na sarjeta em busca do que está nos importunando no fundo da gaveta. Um espinho no pé. Uma tatuagem borrada. Um brinquedo quebrado, um defeito no auto-retrato. Era decepção, eu já devia saber. Todas as vezes em que senti um comichão no peito, esperando por você, esperando que desse certo e esperando te ver, eu já devia saber: nunca ia acontecer. Deixava, então, o som do meu coração caindo no chão ecoar por toda a minha vida: "- aprende, menina, aprende!" O que acontece uma vez, talvez nunca mais aconteça. Mas se acontece duas, a probabilidade de voltar a acontecer é imensa. Alguém devia ter me avisado que não se confia em erros desfalcados, disfarçados de boas intenções. Aprende, criatura! Se auto-vacina, menina!

Vou Cuidar Do Meu Espetáculo







Hoje quando entrei no ônibus fui invadida por uma sensação de estar esquecendo algo. Rezei pra que fosse você. Sempre fui muito convicta das coisas que não queria aceitar e uma delas é essa metamorfose que pensávamos ser amor. Sabe, coisas importantes na bolsa, o resto, fora do coração. Apaixonar-se por você sempre implicou um retrocesso amoroso e disso, eu juro, não tô a fim. Já chega desse amor milimetricamente medido com a fita métrica do seu egoísmo. Já chega de tentar lidar com sua natureza entrópica e desastrada. Chamativa e arruinada. Eu não aguentaria sozinha o peso de te consertar. Já chega de alimentar essa utopia que criei de você, afinal, tenho esse defeito de ver em você uma pessoa que você não chega nem aos pés de ser. A gente se engana muito na vida. Com tudo. Não seria diferente com as pessoas. A gente costuma enxergar diamante em bijuteria. Você brilhava, menino, mas era um brilho tão barato quanto suas desculpas esfarrapadas. Eu queria de você um amor que você nunca seria capaz de dar. Em troca você me exigia uma vida desproporcionalmente instável. Você fingia estar tudo bem e eu ia, covardemente, empurrava as suas faltas com a barriga. Mas sabe de uma coisa? Como eu disse: coloquei na bolsa o que importa. O resto? Fica pra próxima. Seguir o rumo certo agora é mais importante, a gente que, às vezes, não enxerga. Uma mão no terço, outra na liberdade, porque viver incompleta desse jeito é pra parte de mim que ficou no passado. Em você eu não me encaixo porque sou grande demais e transbordo amor. Que se dane o seu brilho falso! Eu quero mais é cuidar do meu espetáculo.