A Saudade Também É Uma Forma De Ficar



A saudade também é uma forma de ficar. Os muitos que se vão, sempre deixam algo em seu lugar. Deixam saudade: do futuro, do passado; saudade dos passos dados. A saudade do beijo, do abraço! Do amor, do calor, de corações entrelaçados. Quem vai sempre arruma um jeito de voltar. Voltam nos sonhos, nas lembranças. Voltam nas músicas, nas brisas... Mas sempre voltam. Sempre deixam uma presença trêmula nos pegando pelo braço, nos zelando em sono calmo. Talvez a saudade seja o único elo que nos faça voltar pros braços de alguém, pros pais que moram longe, pro amigo distante. Sentir saudade é coisa boa, viu? Nos faz ansiar por um amor que ameaça ir e nunca vai; arruma as malas, chega à porta, põe os pés fora... Mas sempre volta por saudade. Ausência cura muito amor e ninguém percebe. Amor semi-hibernado é curado quando bate de frente com a saudade ali na esquina. O sinal de alerta é ligado e ele volta a acordar. Nós já somos seres de ausência por esconder sempre, por medo ou precaução, a própria alma. Presença é só aquilo que se quer mostrar pro mundo, não é? As coisas mais bonitas estão escondidas, é verdade. Em loja elegante, a melhor peça não fica na vitrine. Do mesmo jeito somos nós: os sentimentos estão sofrendo de problemas habitacionais crônicos, graças a Deus! A cada dia que passa, vejo que sentimento verdadeiro não se expõe, não se mostra em redes sociais. Tá ali, escondidinho, quase sem brecha pra respirar. Mas fica tão vivo, tão mais intenso, viu? Porque a gente não faz outra coisa senão tentar aliviar as dores das ausências. E quanto mais se tenta limpar as feridas, mais sentimento é trazido pra fazer os curativos. Descobri dentro da minha ausência um dique que me livra do medo de não ser amada! Sejam mais saudade!

Estamos Quebrados Por Dentro


Eu não precisei de muito para me dar conta do quanto as pessoas andam carentes. Não precisei de muita pesquisa, muita análise, livros grossos, viajar demais... Só precisei de breves conversas. Numa dessas conversas, uma frase me comoveu: "Olha aqui! Hoje ter tudo é sinônimo de ser vazio!" Triste realidade. As pessoas andam carentes de abraços apertados, sabiam? Carentes de pronomes indefinidos - algo e alguém que completem espaços. Antes esse algo abstrato se chamava amor e o alguém já tinha nome e sobrenome, até qualidades previamente descritas por quem o procurava. Hoje ninguém, sequer, procura. Os muros estão altos demais. Tá tudo tão blindado que nada se vê através das armaduras. As pessoas estão carentes de presenças concisas, de olhos nos olhos, de conversas, de toque! É muito decadente saber que chegou-se ao ponto onde o oco existencial é preenchido com coisas. A melhor das desculpas que escuto quando falo isso é "- mas a gente não faz outra coisa senão tentar aliviar as dores das ausências com coisas!". Aí aparece o pézinho da Lei do Engano Nosso de Cada Dia: Coisas não substituem sentimentos porque são necessidades dispensáveis. Acredito eu que paz interior alivia dores. Acredito também que se doar ao próximo traga alívios transigentes, sabe? Arnaldo Jabor num de seus incríveis textos disse que "estamos cada vez mais belos e mais sozinhos". Eu sei, eu sei... As evoluções ocupam demais o nosso tempo, nosso sangue, nossas paixões. E o pior é isso... Ter tempo pra tudo e não enxergar o essencial. É ser transversal demais, é passar por algo sem se dar conta de sua existência... Cortá-lo ao meio, empurra-lo pro abismo, transformá-lo em caos. É perca de tempo querer se esconder de possíveis sentimentos debaixo da cama com medo de quem possa nos puxar dali. E o pior é que tá difícil encontrar alguém que te "puxe". Pois é, estamos carentes de pessoas que insistam! Estamos quebrados por dentro e sem a piedade de alguém que invista no conserto. Se parar pra pensar, a gente só deixa pedaços em esquinas. Nunca se dá por inteiro, nunca morre-se de amor, nunca deposita-se a confiança completa numa calçada. Esquecemos o que é amar! E daí faz-se necessário uma moleta. Um apoio pra ficar de pé, pra não deixar que a tristeza seja transparente demais. Maquiagem, é disso que elas falam. Sexo, é disso que eles falam. Uma mola que nos impulsione pra frente todas as manhãs. Ser carente de algo que a gente escutava falar tanto e saber que não se encontra mais, é a maior das dores que alguém pode sentir. Não desejo isso pra ninguém.

Se eu for, amor, não volto!



Meu amor, eu tô escrevendo pra, quem sabe, um dia você ler. Mas deixa eu deixar logo claro que não é nada sobre você, sabe? É sobre o quanto eu, só por ter te aceitado, já sou 10 vezes mais macho que muito homem. É sobre o quanto eu, de tão mulher assim, te fiz crescer. É verdade que hoje você desaprendeu muita coisa, mas aí já foi culpa da sua vontade de querer sempre dar errado. Olha, deixa eu te lembrar que eu nunca precisei usar uma saia que mais parecia um cinto, uma blusa com um decote no umbigo e pra fechar o pacote, um salto catatônico, e, mesmo assim, só eu conseguia te fazer muito homem. Deixa eu lembrar também que, todas as vezes que você chorava, desabava - e eu te apoiava no ombro - e você saia por aí dizendo que homem não chora, eu ficava ali, no cantinho, batendo o pé no chão, desaprovando, mas nunca te desmoralizando. Ah, meu amor, eu tô escrevendo mais para mim, sabe? Pra que fique bem claro que, como meu, meu anjo, tá difícil. Queria falar sobre muitas e muitas coisas, mas, principalmente, sobre com quantos caras eu poderia estar saindo nesse minuto e sendo bem mais feliz com alguns do que fui com você em anos, porque, venhamos e convenhamos, pelo "nós" você não fez sua parte. Mas aí eu declaro que a culpa foi toda minha, porque eu tenho essa mania feia de ver em você a bondade e beleza que não te envolve e a pessoa que você não chega nem aos pés de ser. Olha, acho muito legal você viver achando que como eu tem aos montes, mas, em nome da pouca dignidade que te resta, te dou um conselho: Reza, reza bastante, põe a mão no terço e pede a Deus para que no meio dessa sua brincadeira eu não encontre alguém melhor - o que já nem é difícil - e vá embora. Porque se eu for, amor, se liga: EU NÃO VOLTO!

Amor De Licor






Comecei o ano me fazendo uma promessa: vou parar de beber! Vou sim! Parar de beber todo esse amor de licor que me oferecem sem pudor numa noite fria qualquer. Parar de tomar essa gente mesquinha, empurrando garganta abaixo como se fossem a água mais cristalina do mundo. Não são. São “água suja”, aguardente puro, difícil de engolir. Chega dessa embriaguez desmedida, chega da ressaca que me faz companhia quando quem me deu as doses de ilusão na noite anterior se vai. E ressaca de desamor é a pior que tem, viu?! Queima tudo por dentro, faz a cabeça girar, o coração fica vazio e a dor não passa. Não passa nunca. Parece que a gente vai morrendo aos poucos, não é? E eu tô cheia dessa morte vagarosa! De tomar todo o mundo até o último gole e não ter ninguém que me salve dessa bebedeira. Tô me tornando alcoólatra! Viciada nessa esperança cega de que, ao fim de cada garrafa de ilusão barata, tenha um pouco de felicidade. Mas não tem. Quando me dou conta, já tomei tudo e minha alma não filtrou nada. A minha mania de afogar os sentimentos nos "litros" de frustrações alheias vai acabar me levando pro fundo do poço. Então preciso parar! Tudo bem que dizem que um vício só se cura com outro, então eu troco meu alcoolismo-sentimental pela sobriedade-meio-amarga que me espera. Prefiro estar limpa e amar sóbria do que me apegar ao amor de licor que só dura uma madrugada. E feliz abstinência pra mim, viu? Vou ficar bem! Nada de empurrar covardemente com a barriga os cacos que ficam de mim depois da noitada regada por mãos que nunca tocam as minhas.