Mas tem gente que precisa de uma faxina


Minha avó sempre dizia que era mais fácil colocar a culpa do sumiço do bolo em quem está com as mãos sujas. E quando se trata de racionalidade num relacionamento, os dois sempre estarão imundos. Quando se quer ter razão no amor, não se põe na mesa facas pra cortar o bolo em partes iguais, mas se debruçam mãos, olhos e sentimentos famintos por algo que, instintivamente, se esconde dessa loucura. Escudos e capas aos remendos, era isso que ele tinha. E o que mais me irrita não é o fato de ele amar o próprio bloqueio ou se matar por dentro ou construir muros altamente blindados ao redor do castelo-encantado-feito-só-pra-ele, mas o que me enfurece é a minha natureza de brisa, que nunca teve a intenção de ser furacão, mas com suavidade sempre arrasta pra debaixo da minha porta os segredos por detrás de todas as máscaras. E tem gente que não suporta a ideia de ser resgatada. E eu sempre fui, mesmo a contragosto, um tipo de válvula. Sempre ofereci mais que uma descrição pra quem não se conhece, sempre dei mais que a mão pra te puxar do caos, sempre fui liberdade pra quem só conhece libertinagem. Sempre sou jogada no meio de um ferro-velho e obrigada a desenferrujar corações alheios. Cheguei a me considerar uma doméstica-interna muito mal paga, limpando a casa dos outros, varrendo dela toda a desesperança e tirando de dentro do armário todo amor que perfuma a casa. Recompensa? Nenhuma. Mas sempre achei que valeria a pena. Afinal, tem gente que precisa de uma faxina, de uma repaginada pra entender que atos friamente calculados até podiam ser motivos para medalhas, mas com isso não se vence batalhas. Tem gente que só precisa conhecer mais de perto isso que eu ando colocando em tubo de ensaio pra apresentar por aí. Quer saber o que? Ponha uma máscara e vista seu escudo, daí, quem sabe, minha natureza vai se encarregar de me fazer te encontrar...

Sentada, Mas Não Te Esperando


Notei que ultimamente tenho esperado demais de você. E me decepcionado na mesma proporção. Qual o teu problema, ein? O que você vê de tão maldoso em se entregar um pouquinho mais? Que medo infernal é esse de amar? Se jogar sem medo do abismo... Por favor, para de olhar tanto para os próprios pés, para de calcular cada passo e presta mais atenção na estrada ao redor, presta atenção no que está perdendo. Porque, tipo assim, você sabe que está perdendo, sabe sim, só não consegue aceitar que nem sempre os outros conseguem acompanhar seu ritmo. Eu tento, vivo tropeçando, as vezes caindo e levantando, mas estou tentando, oras... E o que recebo, por favor? Essa inconstância, essa mania de oscilar entre correr e caminhar... Mas acontece que tem hora que a gente cansa. Fica ofegante, sabe? E quer sentar, tomar uma água de coco, pôr um óculos de sol no rosto e aproveitar. Eu tô nessa fase agora. Só querendo relaxar. Dá pra você entender isso? Sei que não é difícil. "Relaxar", esticar as pernas, dar uma trégua pro coração, dar sossego a tudo no mundo. Aí, de tão boa, vou tentando te lembrar que nem sempre desacelerar significa perder o passo, mas você não aceita, não é? Então eu fico por aqui... Sentada, mas não te esperando. E quando me levantar e começar a correr, não será atrás de você, e sim da minha felicidade. E aí, quem sabe, cansado fique você de tanto tentar fugir e se esconder.

Beija-florindo

 
Em uma dessas conversas, ele me disse que todas as tardes, por volta das 12h40min, um beija-flor passava por sua janela, procurava néctar e logo ia embora; remexia as flores do quintal e sumia. Tão provisório, lindo e vulnerável como ele só. Aproveitou a oportunidade e disparou a frase: “é, depois do almoço ele sempre acaba se beija-florindo”. Como não rir de um verbo que define tanto a sua própria transitoriedade? Pedir para você não voar é quase poesia. Pedir pra você ficar depois das 12h40min, dá samba. Se eu soubesse antes que me importar com seu bater de asas era atitude de menina apegada e infantil, não teria apostado comigo mesma na sua piedade. Eu que não percebia: tudo no seu tempo, em certos momentos... Se Cazuza conhecesse o meu drama, diria que “dá pra fazer rima toda a minha bobagem”... E eu, sempre tão cheia de flores, te servindo de ninho de vez em quando, quando o inverno insistia em te arrancar das raízes murchas de outros amores mal plantados. Que raiva que dá ter cor só pra quem não sabe amar! Você sempre me pedia o néctar que eu não tinha, mas eu me virava. Sempre quis um beija-flor voando pelo jardim, sem grades, mas por perto... Meus pés estavam nas nuvens e eu nem suspeitava o quanto a queda podia ser dolorosa e que as suas pequenas asas não poderiam me segurar no ar. Se eu soubesse antes da sua vaga transitoriedade, me esforçaria para não me apaixonar por quem só sabe embelezar uma tarde. Se eu soubesse antes, imploraria para que passasse assim mesmo, no horário do almoço e fosse logo embora. Nunca imaginei que te preferiria beija-florindo...

Tenho, aos poucos, ido embora


Numa de nossas conversas corriqueiras, escutei você dizer que odeia perder as chaves do carro. Assim, do nada, foi o que você falou. Imagina então, quando você se der conta de que me perdeu. Imagina só quando você se tocar que o que era teu, já não te pertence. Logo você que sempre dizia: "Das minhas coisas cuido eu", parece não ter notado que tenho, aos poucos, ido embora. Fico pensando se fará alguma diferença perder meu coração junto com as suas chaves ou quem sabe as chaves te façam mais efeito. Quem sabe? Pra quem odeia perder as coisas, você tem provocado em mim uma imensa vontade de fugir de ti e, mesmo assim, tenho me obrigado a ficar te lembrando repetidas vezes onde estão os objetos esquecidos, até mesmo onde está meu coração... Toma cuidado, não esquece onde guarda ele não... Um dia, quem sabe, eu não estarei mais aqui pra te lembrar onde você deixou jogado o que, na verdade, nunca era pra ter sido achado.

"Mesmo sendo limão, é ele que quero semear"



Eu achava que amar era olhar pro cara certo, no momento exato e, como cena de filme, fogos explodiriam e surgiria uma nota de rodapé com um "foram felizes para sempre". Eu achava que amar era acaso: nos esbarramos hoje, nos apaixonamos no mesmo instante e ai fomos felizes. Eu achava que amar era ser pólvora e o outro fogo: encostou já era. Eu achava um monte de bobagenzinhas até antes de amar. Percebi que amor mesmo, esses que a gente luta tanto pra viver, é escolha. Sim, escolha. É plantar a semente do outro mesmo sem saber que fruto vai dar. E, mesmo que não seja o mais esperado, colher com mãos de ternura. Amor é vela acesa no meio da ventania que nos faz queimar a ponta dos dedos pra não deixar o fogo apagar. Sua essência está na cera que derrete e a mantém de pé, sem titubear. Amor é escolher deixar a vela acesa, mesmo podendo apagar, mesmo podendo deixar a ventania levar. Amor é escolher a palavra mais incrível do vocabulário: permanecer. Tão lindo quem permanece! Pra ser amor não precisa ser a fruta mais doce do Universo. Mas precisa ter o teor de escolha: mesmo sendo limão, é ele que quero semear.