A Vida e O Tango Argentino



No auge de sua juventude, Manuel Bandeira (portador de tuberculose), depois de consultas médicas, recebeu o seguinte diagnóstico: 
“– Meu caro, (HAHAHA), vá para casa escutar um tango argentino e esperar pela morte.”
Simplesmente, foram essas as palavras. Vá. Casa. Tango. Esperar. Morte. Havia uma risada sem graça no ar. Uma piada de mal gosto. Uma ironia da vida. Mas assim viveu, dia após dia, esperando pela morte e escrevendo sobre a vida. O tempo todo tendo uma vida que poderia ter sido e não foi. Isso me faz pensar numa máxima: o que leva tanta gente a desperdiçar a vida com tanta lamúria, insatisfação, comodismo e egoísmo? As pessoas sentam pra escutar um tango argentino e deixam tudo de valor atrás da porta, esperando pela ação contundente que nunca acontecerá, por um estalo de dedos frágeis. Pior: as pessoas esperam que alguém apareça e estale os dedos! As pessoas esperam pela fórmula pronta, equação resolvida, amor banal e displicência legal. Tá errado! Entregam a própria felicidade nas mãos de quem, às vezes, não sabe decidir sequer o que irá comer, imagina o caminho pra fazer alguém feliz... Tolhem, assim, toda e qualquer possibilidade de felicidade! Onde já se viu? O risco é muito alto. Não dá para responsabilizar um humano falho como você pela vida diagnosticada que é só sua.
Mas vem aqui e deixa eu te contar: têm aqueles momentos em que a gente fica triste por cada coisa sem fundamente que é, normalmente, criação louca de nossa cabeça, não é? A gente perde tempo com brigas e picuinhas, chateações... A gente perde a alma em briga de foice e sentimento bom no tatame! Todas as vezes em que penso, talvez, que o melhor seria desistir, lembro de Manuel Bandeira. Foi dessa gente que tinha tudo pra ceder e simplesmente esperar, mas preferiu fazer da morte a sua graça. Sabe, pega a tristeza pela mão e dança esse tango argentino! Não se culpe por querer ter uma vida leve: não faz mal tirar do caminho as pedras gigantes. E se não conseguir tirar, pule-as. E se não saltar, chama alguém pra te ajudar, só não dê responsabilidade a quem não tem. 
Não há tempo para viver provisoriamente! Esquece um pouco os problemas. Joga pro Universo! Deixa o vento transformar em confete e cair feito purpurina na cabeça! Sinta-se mais feliz todos os dias. Provoque mais felicidade! Em você, nos outros... Faça algo por você! Não que a vida seja um eterno carnaval, mas todos os dias temos um motivo pra ter Reveillon. Tanta gente aí tuberculosa, esperando sentada pela morte e você aí podendo pegar esse tango e fazer de trilha sonora! Encontre motivos mesmo que banais! Não dependa do sistema que te manda esperar em casa. Corra atrás de algo que sempre está ali na frente: sua vida

Esperança e Luto

Quando me diziam "perdi as esperanças", eu achava tão sem sentido que nem contestava. O fato de "ter esperanças" me parecia tão subjetivo que, a meu ver, mais se tratava de uma frase de efeito que de sentimento, sabe? A gente pode sentir os ventos nos cabelos, o arrepio da pele. A gente sente amor. Sente dor. Mas esperança? O que ela fazia com a gente? Eu não sabia. E como poderia? Esperança é meio que aquela pessoa que, por ser tão nossa, não nos passa pela cabeça que sua perda seria dolorosa. É aquela pessoa a qual nos acomodamos e esquecemos num canto. A gente "tem", fim. Sem grande celeuma. Porém, certo dia, ao chegar em casa ela não estava no sofá. Ela não se pôs à mesa para conversar e nem na cama para dormir ao meu lado. Ela sumiu. Procurei por todos os cômodos: minha Nossa Senhora, cadê a Esperança? Eu a perdi. Daí, toda aquela prosa inicial fez sentido. Se tornou tão "mais objetiva" que parecia faca afiada na pele, dilacerando em cortes verticais, uniformes, dolorosos... Parecia que aquela pessoa que já se confundia com os cômodos da casa, havia arrumado sua trouxa e dado no pé. Que vago. Que buraco sem fim. Que confusão de vida. Dei-me conta: Ela não é a última que morre, só demora a desaguar, só teima a não ser despercebida. Perder as esperanças dói como perder o ente mais querido da família.

Prefere Tênis Ou Frescobol?







Não é fácil amar o próximo e a gente ainda complica, já percebeu? Você sempre exige o que não podem te dar e ainda acha justo, ainda acha certo. Você sempre espera e ancora suas expectativas no outro como se ele – ser falho e errôneo como você – fosse obrigado a suprir necessidades, por vezes, egocêntricas. Não é correto. Hoje em dia as pessoas veem o ato de amar como um jogo de tênis: Um vai devolvendo a bola para o outro, utilizando cortadas, procurando os pontos fracos do adversário até fazê-lo derrubar a bola. É um tal de joga sonho, carinho, afeição pra lá e pra cá até um deixar cair e só um poder rir com a vitória, apontando o dedo na sua cara: "A culpa foi sua". Um vai passando as responsabilidades para o outro num ciclo vicioso. Disforme. Tênis é um jogo que só há um vencedor. Ou seja, felicidade de um, tristeza do outro. É assim que acham que relacionamento tem que ser. As coisas deveriam ser muito mais simples como um jogo de frescobol: Para ser bom, nenhum dos dois podem perder, porque ambos almejam vencer juntos. Para começo de conversa, o outro nem é seu adversário, é seu parceiro. Ninguém fica feliz quando o parceiro erra a jogada, e se errou, pede desculpas e recomeça. Há os 3 C's mais bonitos do mundo: comprometimento, confiança e cumplicidade. A bola é devolvida gostosa, e se houver um deslize, a gente tenta consertar para que o jogo flua bem! E assim segue – bola vai, bola vem, compartilha-se sonhos e fantasias, marcam pontos juntos: Amor que cresce, viu? Sem essa impetuosidade que o tênis exige. Sem a vontade alucinada de fazer o outro perder, de provocar ganância e destruir toda a conivência. Tem que querer vencer junto, não é? Tem que ler os sinais do parceiro. O negócio é manter o outro na jogada! Tem que ser feliz a dois!


É, acho que amar é isso: Um jogo de frescobol.

Bicicleta Sem Rodinhas





Minha avó me ensinou direitinho como cuidar de um machucado: " quando você se machucar, lave bem e ponha um curativo no lugar. E quando estiver remotamente melhor, arranque o curativo da ferida com um puxão rápido e acelerado, que enche os olhos de lágrimas, mas que dói tudo de uma vez só." Ela só esqueceu de me alertar que tem que ser assim também com as feridas do coração. Quando se trata de assuntos sentimentais, porém, eu vou removendo camada por camada, em dolorosa lentidão. Remoendo e chorando a cada puxada. Já escutei coisas do tipo: " parece que gosta de sofrer, menina! Parece ter prazer em se machucar. Masoquista, é isso que você é!" Talvez fosse. Ou talvez a esperança de encontrar alguém que remonte o coração que outro alguém quebrou seja muito ferrenha e supra toda a dor, faça com que ela nem seja mais sentida. Mas ninguém aparece. Uma hora o machucado é tão grande que não há "curativo emocional" que cubra ou "água esperançosa" que limpe. E é o que tem acontecido, sabe? Até certo tempo eu sabia reconhecer uma dor se aproximando a léguas. Meus pastores alemães internos ladravam em sinal de alerta ao sentirem o cheiro de encrenca no ar. Hoje eles já não são tão eficientes assim. Estão velhos demais, dormem profundamente. Quem aparece junto a cerca do meu coração com potencial para me causar dor, logo faz amizade com meus cães de guarda (malditos e traidores!). Quem chega traz consigo uma bicicleta sem rodinhas, mesmo sabendo que eu não aprendi a andar. Resultado: milhões de machucados que eu tenho que tratar sozinha. Acho que já sou meio dependente dessa falta de sorte. Dores já fazem parte, cicatrizes formaram tatuagens e o cara da farmácia já me conhece – faz um preço justo.